segunda-feira, 16 de julho de 2018

Amparo (ou A última visita)

No fim de todas as coisas. Aqui nos encontramos à beira desse penhasco pela última vez e para o último diálogo. Talvez fosse melhor que tudo terminasse um segundo antes da palavra inicial da primeira sílaba do primeiro fonema antes da língua deslizar pela boca antes da intenção da expressão da sinapse desencadeadora do palavrório que mergulha a nós dois no abismo dos sentidos e da imundície do signo. Era melhor o silêncio. Eu preferia o silêncio. Mas agora estamos aqui diante do vazio que inaugura o fim e que nos acolhe no esquecimento absoluto ou nos joga na imensidão da lembrança eterna. O fim de todas as coisas. Aqui à beira do penhasco para o último diálogo pela última vez em nosso último encontro. Afasta seu rosto do meu. Não me atrevo a encarar estes seus olhos. Não. Aqui nesse penhasco eu jamais fitaria seus olhos. Prontamente me lembrariam daquele mês de abril, dos jacintos que me entregava todo ano, daquela imagem no espelho refletida a me encarar com olhos frios, da antiga sensação do barco à deriva, do frio, da fome, da sede, do eterno diálogo com a morte, velha e saudosa companheira de jogos, de diálogos, de amor. A morte. Foi para isso que nos encontramos finalmente? Não encaro seus olhos para não ver dentro deles a morte, esse fantasma já exorcizado, mas esses seus olhos ainda me seguem mesmo aqui, e ainda que eu esteja com os meus quase fechados e seja incapaz de ver os teus, os sinto e posso perceber você maldizendo cada palavra dita cada gesto negado cada gozo interrompido cada gole não ingerido o ódio ressequido aprisionado e que te coloca aqui hoje em minha frente me olhando com esses olhos imbecis que tanto odeio por tanto amar. E de alguma forma você entrou hoje lá em minha casa, viemos pra cá e aqui estamos, no fim de todas as coisas, diante do penhasco, pela e para a última vez. Eu te saúdo. Brindo à nossa parca existência e agradeço acima de tudo a sua terna companhia. Sente-se aqui na beirada do fim de todas as coisas, velho amigo. Será bem aqui, nesse penhasco, no fim de todas as coisas, o nosso último encontro, nosso último diálogo e sei que posso de antemão te informar, meu caro, que infelizmente você irá morrer. Nenhum de nós ainda sabe dizer como exatamente ocorrerá essa morte. Gostaria que tivesse sido anunciada para que soubéssemos como encarar esse momento de um jeito talvez menos célebre talvez menos monótono, mas Madame Sosostris faleceu antes que pudéssemos visitá-la também pela última vez para que visse sua sorte no tarô. Talvez ela soubesse como seria esse último diálogo, talvez ela tivesse testemunhado como seria sua ação quando nossa conversa terminasse. Você pulará daqui? Sairá correndo para que não morra e assim mude seu destino, vindo a morrer de outra forma que não aquela que seria prevista pela adivinha? Será assassinado? Terá tempo de se desculpar pelos seus erros? Dirá a todos que se arrepende dos seus erros? Pedirá perdão a mim ou a ti mesmo? Pedirá perdão ao diabo? Pedirá perdão a deus? Ele surgirá em sua magnânima e piegas glória para te salvar no último momento como fez em auxílio de Isaac? Serei eu o seu Abraão, mas dessa vez não interrompido pelo joguete divino? Serei acusado de homicídio ou serei eu a causa de sua morte? Nesse triste fim em que nos encontramos, ela saberia dizer se na verdade nada lhe aconteceria e que o anúncio que faço de sua morte não passaria de mera ficção? Não, não é preciso demonstrar receio ante a tudo, te garanto que o fantasma da morte já foi exorcizado e agora é preciso acolhê-la, por sua concretude, como a velha amiga de todos os homens já que a vida, por seu lado, é mero acidente, um acaso iniciado pela explosão do sexo, um maldito encadeamento de coincidências que remontam o início da humanidade e que perduram até hoje e vai perdurar para sempre até o fim dos tempos, até que eu morra, você morra, morram seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, morra a carne do mundo em podridão seca até o que vento sopre e leve o que restou de nossa extinta raça amaldiçoada e virulenta na esperança, essa a única verdadeira, de que nosso pó não resulte em vida em algum outro universo, este também repleto de acidentes e coincidências que perpetuariam a nossa existência. Ao cabo de toda essa esperança, conseguiremos o silêncio amplamente almejado e seremos o puro e cristalino esquecimento, a ausência de tudo e a presença do nada, existiremos de fato na imensidão do vazio que preencherá nossa alma, esta a maior das mentiras criada por nós pelo medo das mazelas trazidas por nossos próprios pecados, criada por nós quando negamos a animalidade que nos torna semelhante ao mais vil e sarnento dos animais abandonado nas sarjetas da cidade, criadas por nós, que imbecilmente inventamos a imprecisa noção de paraíso porque vivemos a esperança de não precisar nos postar frente ao outro ou a nós mesmos por temer nossa face refletida no ódio ou no amor alheio. E eu saberei como te pedir perdão quando a hora chegar? Quando estivermos no fim de todas as coisas, haverá o último diálogo? À beira desse penhasco será mesmo a última vez? Talvez seja melhor que tudo termine um segundo antes da palavra inicial soar sua primeira sílaba, moldar seu primeiro fonema em nossa boca, antes que língua deslize, antes que a sinapse da intenção da expressão se desencadeie no palavrório. Foi para isso que nos encontramos pela última vez? Para a nossa morte. É melhor o silêncio. Eu prefiro o silêncio.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Hiato de pressa e presságio

há dias a voz mostra-se intranquila
mergulhada em completo silêncio
retiro desse mar sílabas de pura rouquidão
faz-se o hiato e a pressa reprimida
manifesta no desejo da fala
antecedendo o presságio da morte
nesse espaço vazio, a inquietude dos anos
afoga o peito em pútridas secreções
murmura este homem um réquiem silencioso
a velar seu próprio corpo
à espera de um último suspiro

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Espinho

o verbo - estancado em minha glote -
silenciou o fluxo
de letras-frase-oração
frente à palavra
calei-me
não disse
engoli a seco
o espinho da palavra
que me fere
por não dita
no seu silêncio - que bendito -
compõe o poema que vomito

sábado, 22 de junho de 2013

Poesia para tempos de guerra

incomoda-me por nome às coisas
Fazê-lo é impor registro
cercear sentidos
significar o inefável,
este carrapicho que perturba
pela sua vaguidão
que não pode - nem deve - ser enunciada.