domingo, 25 de março de 2012

Sobre nossas conversas

De todas as coisas que conversamos ao longo desse período, Jaílson, talvez nem tudo faça sentido ou, quem sabe, seja adequado. Mas devo dizer: me completa. Não por inteiro. Mas completa.

Aquele pedaço branco em minha mão poderia fazê-lo, mas está gasto. Até porque sua serventia já pode ser questionada, tamanha sua inferioridade e inferiores quem os possui ou quem os veja. Uma pena.

Tão somente por isso passo horas com parcas linhas escritas por imediatismo, um labor sem técnica, tamanho o desejo de simplesmente sentir a mim, a outra parte, aquela que anseio e, assim, que me permita sentir-me completo. Ou falsamente completo, como creio.

Mas o que se espera de um interlocutor em silêncio, senão o vazio? Como querer completude, se a mim próprio tenho a outra parte como oca, como a imagem de ti, ou de mim, ainda não sei, mas vazia de qualquer modo, sob qualquer ordem, incompleta de qualquer maneira.

Vaguidão
Presença do nada
Ausência do tudo
Completude
Incompleta
E esse seu riso endiabrado.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Metamorfose

Ser dois, mais.
Simbiante, mutante
Desdobrar-se entre linhas
Sinuosas
                                            de soslaio
                              subtrair-se
              modificar
Não um
Dois
Mais

Simbiótico, genético
Entre retas
contínuo
Igual
                                                momentaneamente
                                 somar-se
                      manter
Ser todos, ou
ninguém.

Nada mais

terça-feira, 6 de março de 2012

Nenhum ou cem mil

            Há sob minha pele tantas outras, caro amigo. Levemente dói quando resolvem descamar, dando-me um tom avermelhado, depois levemente claro, deixando-me, por fim, levemente pálido. Tantos rostos sobrepostos pelo meu que desconheço o primeiro. Torno-me os demais. Não por gosto próprio, devo dizer, mas reflexo de quem olha ao espelho, absorvendo - e olhando - não a imagem de si, mas daquele que vê e dos transeuntes ora refletidos.
          Unifico-me em vários, desdobro-me em um. Uno. Trino. Um deus entre mortais que, por sua condição divina, vagueia silenciosamente sem reconhecimento, seja pelo olhar alheio ou pelo desapego de si.
          E esta face agora a desconfigurar-se. Este rosto que se perde traçando linhas, mapeamentos, fronteiras.
       Um pedaço cai-me sobre as mãos e vejo-me, novamente, transmutado. Ja não mais o que iniciou a conversa. Tampouco posso te ver da mesma forma. Não mais eu e tu. Ou ele - eu - que falava de ti. Nós! Tu em mim. Me em ti.

          Há tempos que não nos víamos. Outro pedaço de face. Pálido. Perco-me.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Áridas

A T. S. Eliot


Estacionei no tempo e em costumes.
Acomodei-me, cotidianizando a mim.
A mão pesa nesse instante, como a tirar das palavras que desenho a sua volúpia, paixão ou outro substantivo abstrato que o valha.
Áridas palavras.

Ausência.

A velhice dos olhos, sem doçura, frígida, uma vez que enevoados eles estão.
Tal como diz o poeta me sinto, mas se vivo ou morto não sei.
Ainda assim dobro meus joelhos e colho os jacintos
e afago teus úmidos cabelos.

Perplexa e silenciosa, hoje a poesia não me completa.